A vida pastoral e ministerial é marcada por lutas e desafios. Muitas vezes, nessa jornada difícil e gloriosa, muitos pastores e líderes parecem não se lembrar de que são feitos de carne e osso. Acabam se esquecendo que são frágeis e que são pecadores. Apesar de nosso conhecimento e de nossa função ou posição ministerial, nunca podemos nos esquecer que pastor e líder devem desenvolver seu caráter cristão e que devem vencer a luta contra o pecado.
A Bíblia nos mostra que a queda de Adão e Eva muito desfigurou moralmente os seus descendentes. Essa realidade explica por que o ser humano vive em contradição consigo mesmo e com a sociedade na qual estamos inseridos. Nenhuma outra criatura feita por Deus sofre consequências tão devastadoras e destrutivas, decorrentes da realidade do pecado. Um cachorro, por exemplo, não precisa luta contra maus desejos. Ninguém jamais viu um gato viciado em drogas. Os animais mostram-se satisfeitos com a natureza que herdaram, mas o homem, não.
Criado à imagem de Deus, o ser humano foi feito para refletir a glória de Deus. Mas a maioria de nós pensa que suas realizações e conquistas são fruto de sua própria criatividade. Em vez de agradecimento, destacam-se a soberba e a arrogância humanas. Para piorar o quadro, em vez de gratidão, vemos rebelião. É impressionar observar como rivalidade, inveja e avareza são notórios no comportamento do cotidiano, promovendo guerras e matanças. Por isso, com muito propriedade, as Escrituras afirmam: "De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês? Vocês cobiçam coisas, e não as têm; matam e invejam, n|o conseguem obter o que desejam". Estas palavras de Tiago, meio-irmão de Jesus, descrevem a realidade que caracteriza o herdeiro da natureza pecaminosa de Adão.
Mas o fato intrigante para quem se dedica ao estudo da antropologia é que, mesmo diante desse caráter defeituoso e mau, nós, humanos, desejamos ser íntegros, confiáveis, amáveis, benevolentes e generosos. Isso é ainda mais claro na vida de cristãos que se consagram a Deus. O cristão, que recebe o Espírito de Deus no novo nascimento, sinceramente deseja ser alguém que reflete a imagem de Deus, conforme dada ao primeiro casal. O cristão sincero quer ser alguém que vive de acordo com a Lei de Deus. Mas, infelizmente, apesar da disposição do coração de tantos servos de Deus, os escândalos, as decepções com outros cristãos e até mesmos líderes, mancham as páginas da história. E a verdade é que, se formos honestos, mancham a nossa própria história. Foi por isso que J. Goforth certa vez afirmou que todos os pecados cometidos fora da igreja encontram-se dentro dela, talvez em menor intensidade.
Qual é então o problema? Onde está a chave da questão? Paulo admitia não entender o que fazia: "pois não faço o que desejo, mas o que odeio" (Rm 7.15). O problema é mais profundo. Está dentro de nós. A contradição mostra-se claramente arraigada no fundo do nosso coração. E isso não deixa de ser verdade no caso do líder e do pastor. A luta contra o pecado continua mesmo para os mais experientes e consagrados. Contra o ideal que almejamos como cristãos sinceros, destacam-se alguns inimigos poderosos. Gostaria de mencionar apenas quatro neste artigo.
Soberba
Nossa autoestima, muitas vezes autocentrada, não permite que nos avaliemos honestamente. Aos nossos próprios olhos somos pessoas boas, agradáveis, bem-intencionadas, honestas e justas. Até chegamos a rir ao ouvir o fariseu agradecendo a Deus por não ser como os outros homens (Lc 18.11), mas não somos tão diferentes. Nós não nos comparamos aos outros achando de fato que somos piores do que eles. Em nossas orações - "Perdoe nossos muitos pecados"- é um pedido muito repetido, mas quase nunca se menciona nenhum deles.
Pecado sexual
A preocupação com o pudor e o respeito já não são marca de nossa sociedade há muitas décadas. Cartazes chocantes e despudorados, fotos eróticas impróprias multiplicam-se por toda a parte em nosso cotidiano. Filmes, TV, novelas, revistas e internet exploram a atração sexual. A pornografia está em toda parte. O sexo tornou-se mero veículo de propaganda comercial. O efeito desse assalto ao pudor muitas vezes não fica apenas na tentação, mas acaba transformando-se em pecado. Jesus nos advertiu: "Qualquer que olhar para uma mulher e desejá-la cometeu adultério com ela no seu coração" (Mt 5.28). O apóstolo Paulo também nos exorta: "Fuja dos desejos malignos da juventude e siga a justiça" (2Tm 2.22). O próprio Jó também enfrentou esta tentação: "fiz acordo com meus olhos de não olhar com cobiça para as moças" (31.1). É preciso fugir do pecado sexual.
Honestidade financeira
O caráter do cristão se revela pelo seu procedimento para com as riquezas alheias. Paulo tinha grande receio de aparentar ou mesmo permitir alguma acusação de tocar na oferta levantada pelas igrejas da Grécia para os necessitados da Judeia. Ele até chegou a pedir que as igrejas mandassem representantes para acompanhá-lo (1Co 16.1-4).
Não foi somente Judas que aproveitou a confiança dos discípulos para roubar do fundo de manutenção dos discípulos. Paulo escreveu para os coríntios: "ao contrário de muitos, não negociamos a palavra de Deus visando lucro; antes, em Cristo falamos diante de Deus com sinceridade, como homens enviados por Deus" (2Co 2.17). Tenham sempre o cuidado de manter o alto padrão de caráter com relação ao aspecto financeiro. Esse deve ser o compromisso de todo cristão, principalmente líder e pastor.
Paulo se apresenta, no livro de Atos e em suas cartas, como modelo de integridade. Isso fica claro nos escritos de Lucas onde vemos que, longe de amar o dinheiro, Paulo trabalhava com as mãos para sustentar a si mesmo e a seus companheiros: "Não cobicei a prata nem o ouro nem as roupas de ninguém. Vocês mesmos sabem que estas minhas mãos supriram minhas necessidades e as de meus companheiros. Em tudo o que fiz, mostrei-lhes que mediante trabalho árduo devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: "Há maior felicidade em dar do que em receber" (At 20.33-35).
Quando foi preso pela acusação falsa de ter levado o gentio Trófimo para a área do templo restrita apenas aos judeus, Paulo foi chamado por Félix, o governador, para ouvi-lo sobre a fé em Cristo Jesus. "Quando Paulo se pôs a discorrer acerca da justiça, do domínio próprio e do juízo vindouro, Félix teve medo" (At 24.25). Certamente Félix tinha observado a conduta de Paulo. Ele conhecia a esperança dos profetas de que haverá ressurreição tanto de justos como de injustos. Paulo deixa claro seu compromisso com a honestidade: "Por isso, procuro sempre conservar minha consciência limpa diante de Deus e dos homens" (At 24.15). Mas, Félix, sendo um homem sem moral e corrupto, esperava que Paulo lhe oferecesse algum dinheiro, pelo que mandava buscá-lo frequentemente e conversava com ele (At 24.26).
Autodefesa
Negar admitir a própria culpa e esconder os pecados não condiz com a vida transformada pela fé salvadora em Cristo. Andar na luz e confessar transgressão foi o caminho que Davi tomou quando o profeta Natã o confrontou no caso do seu pecado com Bate-Seba (2Sm 12.13). Não há dúvida de que é mais fácil rebater o confronto direto diante de um deslize grave com mentiras ou com tentativas de apenas se desculpar. Mesmo quando se admite um pecado condenável, o culpado tantas vezes se defende tentando minimizar a gravidade da ofensa. "A doutrina bíblica do arrependimento depende do fato de que todo pecado é uma grave afronta contra Deus", afirma Richard Owen Roberts em sua obra Arrependimento: a Primeira Palavra do Evangelho.
Conclusão
Não sei se os nossos dias provam-se mais pecaminosos do que tempos passados. Uma verdade pode ser afirmada sem perigo de contradição. O cristão, líder ou liderado, pastor ou não, não será vencedor apenas com boa vontade. Um caráter, se não for formado sobre o sólido fundamento das Escrituras Sagradas, não será capaz de vencer os assaltos que as tentações de nossos dias lançam diante de nós. Quem não depender da Palavra e estiver mal preparado fracassará. Numa época de discursos vazios e politicamente corretos, todos os cristãos - pais, pastores, líderes, professores, entre outros - têm o dever sagrado de advertir filhos, membros de igreja e alunos sobre os perigos que nos rodeiam. Que Deus nos ajude a vencer a luta contra o pecado.
Russell Shedd
É PhD em Novo Testamento peta Universidade de Edimburgo (Escócia). Fundou a Edições Vida Nova há mais de 40 anos e atualmente é consultor da Shedd Publicações.
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